O que mostram as imagens analisadas pela polícia em caso de agressão denunciada como transfobia no MA
Vídeo mostra agressão e segunda briga em caso denunciado como transfobia
Vídeo mostra agressão e segunda briga em caso denunciado como transfobia
Vídeos de câmeras de segurança mostram a agressão sofrida pela influenciadora digital Lea Reis, mulher trans de 29 anos, durante uma confusão em um bar de Balsas (MA). Os registros mostram Lea com amigos quando uma mulher passa pelo grupo e, em seguida, avança contra a influenciadora e dá um soco nela. Outra câmera registra uma nova briga na sequência (assista acima).
O caso aconteceu na madrugada de domingo (9). Lea denunciou nas redes sociais ter sido vítima de transfobia e afirmou que levou socos no rosto sem entender o motivo da agressão.
Influenciadora denuncia agressão por transfobia em bar no MA; polícia investiga motivação
Quem é a influenciadora cearense que denunciou agressão por transfobia em bar no Maranhão
A mulher apontada como agressora, a servidora pública Écilla Ahuad Miranda, de 37 anos, apresentou outra versão e disse que reagiu depois que Lea teria dirigido comportamento de natureza sexual inadequada ao marido e, posteriormente, a teria xingado e puxado seus cabelos. (leia abaixo).
Natural do Ceará, Lea contou que estava em Balsas para participar do casamento de uma das melhores amigas. Depois da cerimônia, segundo ela, decidiu sair com amigos para conhecer a cidade e foi ao bar onde aconteceu o episódio.
Influenciadora denuncia agressão por transfobia em bar no Maranhão
Reprodução/Redes Sociais
O que mostram as câmeras
Em uma das gravações, Lea aparece em uma área do bar ao lado de amigos. Algumas pessoas passam próximas ao grupo, entre elas uma mulher apontada como sendo Écilla. Na sequência, a mulher avança contra a influenciadora e a atinge com um soco.
Outra câmera registra o que acontece depois da agressão. Lea e outras pessoas se aproximam da mulher para cobrar explicações sobre o episódio anterior. Durante a discussão, começa uma nova confusão.
Nesse segundo momento, outras pessoas aparecem envolvidas no tumulto e uma mulher vestida de branco aparece agredindo a mulher apontada como Écilla.
Vídeos de câmeras de segurança mostram a agressão sofrida pela influenciadora digital Lea Reis em bar
Reprodução/Redes Sociais
A defesa Écilla sustenta que ela não sabia que Lea era uma mulher trans e nega que a discussão ou a agressão tenham sido motivadas pela identidade de gênero da influenciadora (leia mais abaixo a nota na íntegra).
As imagens foram analisadas pela Polícia Civil. Em entrevista à TV Mirante, a delegada Ana Marisa Barbat afirmou que os registros não mostram uma interação anterior que, até o momento, sustente a versão apresentada por Écilla de que a agressão teria ocorrido como reação a uma importunação sexual praticada por Lea.
“Esse fato não procede. Isso não é verdade. As imagens são muito claras e revelam exatamente o contrário: que a vítima não provocou, não teve nenhuma manifestação prévia que desse ensejo ou motivasse aquela que seria uma reação à agressão”, afirmou.
A delegada ressaltou, no entanto, que a análise dos vídeos ainda não permite concluir que a agressão tenha sido motivada por transfobia.
“Até o momento, com os elementos informativos colhidos, não é possível definir se houve transfobia ou não por parte da autora das lesões. Ainda não é possível identificar. A investigação seguirá com o delegado responsável, que vai apurar os fatos para verificar se houve ou não transfobia”, disse.
A defesa de Écilla nega que a agressão tenha sido motivada por transfobia. Em nota, Écilla afirma que não sabia que Lea era uma mulher trans e que a discussão não teve relação com a identidade de gênero da influenciadora.
Quem é a influenciadora Lea Reis
Influenciadora cearense Lea Reis denunciou ter sofrido transfobia neste sábado (8), em um bar no interior do Maranhão
Reprodução
Lea Chaves Gomes Reis, de 29 anos, é uma mulher trans e compartilha sua rotina nas redes sociais, mostrando fotos e vídeos em eventos e viagens, além de brincadeiras e momentos de desconcentração com amigos e familiares.
Após sair de Iracema, no interior do Ceará, ela se mudou para o estado de São Paulo. No perfil das redes sociais, ela também costuma falar sobre episódios de transfobia praticados por mulheres e também por grupos de mulheres trans.
Em março deste ano, ela publicou um vídeo em que falava sobre comentários negativos feitos por mulheres.
“Eu vejo alguns comentários de algumas mulheres nos meus posts, sempre tentando me colocar pra baixo. ‘Ai, você nunca vai ser mulher, você não nasceu biologicamente mulher, nunca vai ser uma de nós’. Gente, eu sei, tá? Eu não nasci biologicamente mulher, isso não me invalida”, declarou.
Em janeiro deste ano, Lea perdeu o irmão, que foi assassinado aos 33 anos. Leonardo Chaves da Silva foi baleado ao parar a motocicleta em uma rua de Iracema, no Ceará, para usar o celular. Ele foi atacado por um homem em outra moto, que disparou mais de 20 vezes contra ele.
Veja as notas na íntegra
Nota de Écilla Ahuad Miranda
"Em razão das informações que vêm sendo divulgadas nas redes sociais a respeito dos fatos ocorridos em um estabelecimento comercial, e diante da repercussão que o episódio alcançou, a defesa de Ecilla Ahuad Miranda vem, por meio desta manifestação, apresentar alguns esclarecimentos, especialmente porque os fatos ainda estão sendo objeto de apuração por meio dos órgãos competentes.
Desde logo, é importante destacar que não há, neste momento, conclusão definitiva acerca da dinâmica dos acontecimentos ou da responsabilidade individual de qualquer das pessoas envolvidas, razão pela qual a defesa se limita a apresentar os elementos que já lhe foram relatados, aguardando a conclusão da investigação pelas autoridades competentes.
Segundo o relato apresentado por Ecilla durante sua permanência no estabelecimento ocorreu uma situação de desentendimento envolvendo outra mulher, ocasião em que esta teria dirigido comportamento de natureza sexual inadequada ao esposo de Ecilla Ahuad Miranda e, posteriormente, teria lhe proferido xingamentos e puxado seus cabelos.
Diante dessa situação, Ecilla afirma ter reagido de maneira imediata, desferindo um único golpe com o punho contra o rosto da referida mulher.
O episódio, contudo, não teria se encerrado nesse momento. Pessoas que acompanhavam a outra envolvida se dirigiram até Ecilla e passado a agredi-la conjuntamente, com socos na cabeça, mata-leão, puxões de cabelo, resultando em lesões aparentes, inclusive hematomas e um inchaço (“galo”) na região da cabeça.
A defesa ressalta que, a ocorrência dessa sequência de fatos, bem como a participação e a responsabilidade de cada pessoa envolvida, estão sendo apuradas pelas autoridades devendo ser consideradas as imagens existentes, os depoimentos das testemunhas e os demais elementos probatórios produzidos durante a investigação.
Posteriormente ao ocorrido, a outra envolvida publicou vídeos e manifestações nas redes sociais afirmando ter sido vítima de transfobia e apresentando sua própria versão dos acontecimentos.
Sobre esse ponto, é fundamental esclarecer que, não houve qualquer manifestação, ofensa ou agressão de natureza transfóbica. A defesa afirma com veemência, que Ecilla não tinha conhecimento de que a outra envolvida fosse uma mulher trans e que jamais a teria agredido, física ou verbalmente, em razão de sua identidade de gênero.
A defesa não pretende questionar a identidade de gênero de qualquer pessoa envolvida no episódio. O que se esclarece é exclusivamente que, a discussão e a reação de Ecilla não tiveram como causa ou motivação a identidade de gênero da outra mulher, mas sim a situação concreta que, naquele momento, ela teria percebido como uma importunação contra seu esposo e uma agressão física contra si.
Há, ainda, relatos de testemunhas no sentido de que a mesma mulher teria adotado comportamento de natureza sexual inadequada em relação a outra pessoa presente no estabelecimento. Essa circunstância, entretanto, também deverá ser devidamente apurada pelas autoridades responsáveis pela investigação, não cabendo à defesa antecipar conclusões.
O que causa especial preocupação é que, após as manifestações divulgadas nas redes sociais, Ecilla, mãe, esposa, filha, servidora pública de conduta ilibada, passou a ser alvo de intensa exposição pública, ataques, ofensas e ameaças, inclusive ameaças de morte dirigidas a ela e a integrantes de sua família.
Tais manifestações ultrapassam os limites de uma legítima crítica ou do exercício do direito de manifestação e, caso confirmadas, constituem fatos de extrema gravidade, que também estão sendo levados ao conhecimento das autoridades competentes para a devida apuração e responsabilização dos respectivos autores.
A defesa manifesta sua confiança na investigação policial e no devido processo legal, esperando que todos os envolvidos sejam ouvidos, que as imagens e demais provas disponíveis sejam analisadas e que a dinâmica real dos acontecimentos seja estabelecida com base em elementos objetivos, e não exclusivamente em versões divulgadas nas redes sociais.
É importante, portanto, que a opinião pública tenha acesso às diferentes versões dos fatos, especialmente em uma situação na qual uma das partes passou a ser amplamente exposta e identificada publicamente como autora de uma suposta prática de transfobia, que jamais praticou.
Ecilla Ahuad Miranda reitera que não compactua com qualquer forma de discriminação, violência ou preconceito contra pessoas trans ou contra qualquer pessoa em razão de sua identidade de gênero, e que sua conduta, decorreu exclusivamente da situação concreta vivenciada naquele momento.
Por fim, a defesa ressalta que não pretende antecipar o resultado da investigação nem atribuir responsabilidade definitiva a qualquer dos envolvidos. O objetivo desta manifestação é tão somente assegurar que a versão de Ecilla Ahuad Miranda seja conhecida e considerada na cobertura jornalística do episódio, evitando-se que uma acusação ainda não ocorrida seja tratada como conclusão definitiva antes do encerramento da apuração pelas autoridades competentes.
Balsas/MA, 10 de agosto de 2026.
Dra. Gabrielle Paloma Santos Bezerra Couto
OAB/MA nº 13.364
Advogada de Ecilla Ahuad Miranda"
Nota da assessoria jurídica de Lea Reis
"A COSTA & SOUSA ADVOCACIA E CONSULTORIA JURÍDICA, na qualidade de assessoria jurídica de LÉA REIS, vem a público, de forma objetiva, prestar os seguintes esclarecimentos:
1. A nossa constituinte foi vítima de covarde agressão física, motivada por preconceito de identidade de gênero (transfobia). O caso foi imediatamente formalizado perante a autoridade policial, com o registro do boletim de ocorrência e a realização do exame de corpo de delito, encontrando-se sob rigoroso acompanhamento criminal desta assessoria.
2. A transfobia não é opinião: é crime. Por decisão do Supremo Tribunal Federal (ADO 26 e MI 4733), as condutas transfóbicas são equiparadas ao crime de racismo (Lei nº 7.716/1989), infração inafiançável e imprescritível. A agressão sofrida configura, ainda, o crime de lesão corporal (art. 129 do Código Penal), agravado pela motivação discriminatória.
3. Esta assessoria está monitorando e catalogando toda e qualquer manifestação ofensiva dirigida à ofendida — inclusive em redes sociais e ainda que praticada sob perfil falso ou anônimo. Comentários caluniosos, difamatórios, injuriosos ou de conteúdo discriminatório constituem ilícitos civis e penais autônomos e serão objeto de apuração.
4. Os autores dessas manifestações serão identificados — inclusive mediante requisição judicial de dados de conexão e cadastro aos provedores — e responsabilizados nas esferas cível (reparação por danos morais, arts. 186, 187 e 927 do Código Civil) e criminal. Conforme o recente entendimento do STF (Temas 533 e 987, de 2025), as plataformas digitais respondem pela manutenção de conteúdo ilícito e ficam obrigadas à sua remoção mediante simples notificação extrajudicial, medida que já está sendo adotada.
5. A ofendida é pessoa de conduta pacífica e ordeira, que jamais ofendeu quem quer que seja. Não se admitirá que a sua exposição pública seja convertida em licença para a prática de crimes contra a sua honra e a sua dignidade.
6. Ficam, desde já, advertidos os responsáveis por ofensas pretéritas e futuras de que todas as medidas judiciais e extrajudiciais cabíveis serão adotadas, sem qualquer tolerância, reservando-se à ofendida o direito à integral reparação e à responsabilização penal de cada autor".